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Os desafios da produção em escala nas empresas familiares

Um dos grandes desafios enfrentados pelas empresas familiares é a produção em escala. Desde a Revolução Industrial no século XVIII e XIX, quando pequenas instalações produtivas deram lugar a grandes instalações produtivas, tornou-se claro que as empresas maiores produziam mais a um custo menor. Na prática, quanto maiores as instalações produtivas, maiores são as encomendas de máquinas e matérias-primas, maiores são os ganhos de especialização do trabalho e maiores são os custos totais; assim, uma grande instalação produtiva tem condições de produzir mais – produção total maior – por um custo unitário menor – produtividade[i] média também maior.

Essa redução nos custos unitários chama-se economia de escala. O economista britânico Alfred Marshall, em 1890, foi o principal pensador a explorar os efeitos das economias de escala. Antes dele, o pensador Adam Smith, em 1776, tinha destacado a importância da divisão/especialização do trabalho na redução dos custos unitários e o pensador John Stuart Mill, em 1848, afirmou que apenas empresas maiores poderiam adaptar-se a certas mudanças comerciais. Mais recentemente, o economista Alfred Chandler, em 1977, mostrou a ascensão de empresas gigantes (e globais) e o predomínio da chamada produção em massa[ii].

Isso significa que empresas gigantes passaram a dominar os setores econômicos, produzindo cada vez mais por um custo unitário cada vez menor. Isso se aplica aos três grandes setores da economia: primário (agropecuária/extrativismo), secundário (indústrias) e terciário (serviços/comércio). O resultado é que a concorrência do mercado está mais difícil, principalmente para as empresas familiares. Por quê? Porque, na maioria das vezes, as empresas familiares são micro, pequenas e médias empresas. As grandes empresas podem até ter uma determinada família no controle, mas a gestão profissional e a divisão acionária[iii] não permitem classificá-las como empresas familiares.

Diferentes exemplos reais revelam os desafios das empresas familiares ao enfrentarem no mercado a produção em escala das empresas maiores. Na agropecuária, por exemplo, o setor leiteiro mostra o tamanho do desafio quando comparamos o agricultor familiar que retira 200 litros de leite/dia com a grande fazenda leiteira que produz 10 mil litros de leite/dia. Já, na indústria, o exemplo de uma pequena alfaiataria que produz, artesanalmente, dezenas de peças de roupa/dia contrasta com uma grande indústria de roupas que fabrica centenas ou milhares de peças de roupa/dia. Por fim, no comércio, os efeitos da escala também revelam a enorme assimetria entre um pequeno mercado que encomenda 50 caixas de frango congelado e uma grande rede de supermercados que compra 50 caminhões fechados com caixas de frango congelado.

Esses três exemplos confirmam que escalas operacionais cada vez maiores modificam não apenas os custos unitários, mas igualmente os preços de mercado[iv] (ou preços de venda). Nesse contexto, as empresas familiares não têm como competir com as empresas maiores via preços de mercado. Matematicamente, os custos unitários nas empresas familiares sempre serão maiores que os custos unitários das grandes empresas. Logo, os preços de mercado das empresas familiares também serão maiores que os preços de mercado das grandes empresas.

Então, o que justifica a existência das empresas familiares? No capitalismo do século XXI, as empresas familiares cumprem o papel de ocupar os espaços e/ou vender os produtos/serviços que não interessam à estandardização[v] das empresas maiores.

Dessa maneira, o agricultor familiar que retira 200 litros de leite/dia existe porque pode atender uma pequena comunidade isolada que não interessa à grande fazenda leiteira. Ou, ele pode também transformar seus 200 litros de leite/dia em um queijo gourmet artesanal com maior valor agregado, podendo competir com o queijo industrializado dos grandes laticínios. Neste caso, a competição acontecerá por qualidade e sabor, e não por preço de mercado. Na indústria, a pequena alfaiataria pode competir produzindo peças de roupa customizadas e sob medida; pode atender encomendas pequenas personalizadas cobrando um preço de mercado diferenciado. Contrariamente, a grande indústria de roupas não poderá interromper sua linha de produção em escala para customizar e/ou personalizar a encomenda de um único cliente. Mais uma vez, a competição não será pelo menor preço de mercado. Já, no comércio, o pequeno mercadinho pode tirar vantagens de sua localização em um determinado bairro periférico, podendo cobrar um preço de mercado diferenciado por conta de sua comodidade geográfica. Ou, o mercadinho pode adotar um atendimento mais humanizado, com um delivery personalizado mais rápido ou com um serviço financeiro informal de compra fiada[vi]. Esse relacionamento de proximidade e confiança com o consumidor não é viável em uma grande rede de supermercados que, geralmente, está geograficamente em regiões centrais e opera com um atendimento impessoal. Assim sendo, o mercadinho pode sobreviver com custos unitários e preços de mercado maiores.

Em suma, as micro, pequenas e médias empresas familiares podem superar os desafios da produção em escala focalizando: (1) as praças periféricas que não interessam às empresas maiores; (2) os produtos com maior valor agregado, destacando a customização, personalização e exclusividade; (3) os preços de mercado diferenciados, separando-os dos preços de mercado estandardizados; e (4) os serviços de atendimento mais humanizados e mais próximos ao consumidor.

 

[i]Produtividade é a divisão entre a produção total obtida numa unidade de tempo (por hora, por dia ou por mês) por um dos fatores utilizados na produção (trabalho, terra, matérias-primas e/ou capital). Neste sentido, a produtividade maior expressa a utilização eficiente dos recursos produtivos, tendo em vista alcançar uma produção total maior na menor unidade de tempo e com os menores custos unitários possíveis.

[ii]Em termos práticos, produção em massa é igual a produção em escala.

[iii]Seja no chamado mercado aberto (com ações em Bolsas de Valores) ou no mercado fechado.

[iv]O preço de mercado é o resultado dos custos unitários mais a margem de lucro.

[v]Ou seja, padronização em massa.

[vi]A tradicional relação de consumo com um caderninho para comprar e pagar depois.

 

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O CEPECAF – Centro de Pesquisa e Capacitação da Empresa Familiar tem como propósito dar visibilidade a um tipo de organização de extrema importância econômica e relevância social em nível mundial: a empresa familiar.

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